SER EMOCIONADA, Por Milene Mizuta

Desde pequena, eu danço na frente do espelho.

Menina pequena, a música minha musa, era minha grande anfitriã, enquanto a alegria me fazia encontrar todo o mundo de júbilo em mim.

Mal sabemos que tem cenas que profetizam toda uma vida.

Sei por sabido da vida, que o que manteve viva por todo tempo que tive que negar a mim mesma, foi a menina que dançava no espelho.

Pois que de pouco a pouco como nos filmes, ela perdida no espelho da minha infância, começou resoluta e corajosa a invadir o lado de cá.

Um dedo na superfície do espelho um dia;

Um braço; o ombro.

Um dia quando a mulher adulta já sabia que a verdadeira dança da vida se dança só, ela a menina que dançava, tomou por conta uma coragem sem tamanho e saiu do espelho, pediu permissão, e voltou pro seu lugar.

A menina voltou pro meu peito.

Foi bem agora, nesses últimos tempos que eu subitamente percebi que eu quero, como a menina;

dançar com a vida;

Não com alguém;

Não sozinha;

Com a vida;

Dama da minha companhia, companheira da minha alegria;

A vida;

Tirar ela pra dançar ininterruptamente, uma música após a outra;

E foi tão verdade que a menina voltou e que eu tirei a vida pra dançar, que quem viu, viu a alegria de viver feito momento.

Não tem mais hora, a vida pra mim é o grande baile que me chama.

E até o fim dela, eu vou desnuda de vergonha, desvestida de pudor, sem ouvir o que me dizem:

Dançar, o tesão de ser livre como mulher e poder viver.

A menina sabia que seria assim, a sua também sabe.

Confia.

PAVÃO DE VIME, Por Milene Mizuta

Passando por uma loja, de sapatos caros, num shopping de Floripa e olhando para dentro da loja vi uma cadeira pavão de vime, para quem não sabe ela tem um simbólico, um símbolo do Movimento de Resistência Negro, em 1967 ou 68, o Huey Newton, um dos fundadores e ministro dos Panteras Negras tirou uma foto entronado nela. Como as imagens tem uma potência muito grande, a cadeira estava num shopping hypado de Floripa, sendo usado para que as pessoas sentassem e experimentassem seus sapatos. Então, entre e tinha uma funcionária negra e pedi que ela chamasse a dona da loja, que eu já sabia mais ou menos quem era.

Falei para dona da loja sobre o simbolismo da cadeira, a sua importância para o movimento negro e que ali sendo usada por pessoas brancas para provarem produtos que a comunidade negra não poderia comprar e o quanto isso era ofensivo para as pessoas pretas e para o movimento negro e o quanto era racista.

Seis meses depois voltei no mesmo shopping e passando pela loja a cadeira continuava lá, tinha uma mulher loira sentada provando um sapato caro e diante dela uma mulher negra lhe calçando os pés, e com os olhos marejados, pensei: A gente não está nem aí!!

Ali diante de mim tinha a síntese do Brasil colônia, ali simbólico, imagético, escancarado, pra que eu entendesse que as vidas negras pra maioria não importam, é isso.

OBS: Pesquise sobre conceitos trazidos aqui, não pergunte aos seus amigos e amigas negras.

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