NÃO SUBERTIME SUA LOUCURA, Por Milene Mizuta

Quando eu quis que minha mãe morresse, e ela morreu.

Eram fios e alarmes que se amontoavam sobre minha mãe que respirava sofrido num tubo em seu rosto, a mão que pendia ao lado da cama, a luz branca da sala sem janela.

Eu, sozinha, que via a vida se esvaindo, e minha infância até adulta em síntese sobre a cama em agonia, sem prosa nem poesia, a morte chegando.

Por Deus que peguei aquela mão e enquanto por dentro meu peito desagregava e tudo em mim era víscera, dor e caos, eu rezei, agradeci, prometi seguimento, apreciei e me despedi até quanto o meu desespero foi capaz de suportar.

Joguei os ombros pra trás, pisei firme, olhei nos olhos da médica e disse: “- Seda tudo e já! Não faz mais nada, quero que ela morra.”

Era dizer adeus a minha gênese, era um “eu sei que vou te amar” tácito, era misericórdia.

Foi um único grito sozinha no carro. Um só, rasguei a roupa, a pele, sangrei.

SER GRATA À VIDA, Por Walkiria Tércia

Sempre ouvir dizer das pessoas que passaram por algum acidente ou situação de quase morte de ressignificar a vida, pensava eu cá com meus botões que era clichê demais e obviamente fui surpreendida por uma situação dessas.

Estava eu indo de Brasília para Belo Horizonte pela BR040, dado importante sempre compro poltronas do lado oposto ao motorista, mas uma amiga comprou minhas passagens e só tinha acima do motorista, de repente foi como se pairasse um ar quente que fizesse tudo ficar em câmera lenta, um ônibus circular do DF rodou na pista e parou atravessado na rodovia. Como num lindo balé o motorista do ônibus em que eu estava freou muito e foi jogando o ônibus pra direita para sair pro acostamento. Os ônibus colidiram bem lentamente, na minha visão, vi estilhaçar o para-brisa, mas o vidro não rompeu e em segundo o ritmo da vida voltou ao normal. Alguns gritos, palavrões, todas as pessoas assustadas, atônitas, ninguém ferido. Na janela oposta ao meu assento um garoto, olhou pra mim e disse: Achei que a gente ia morrer, só nós vimos tudo! O rapaz ao meu lado dormia e a moça ao lado dele também.

O tempo passou, ficamos aguardando a troca de ônibus e de repente é como se meu corpo depois de algum tempo sentisse o impacto da batida, meu coração disparou e me veio uma crise de choro, ali sozinha, sem nenhum amigo do lado, foi como se algo me sussurra-se sobre a essencialidade da vida e me veio uma sensação de recomeço, de gratidão à vida!

E desde então, esse é o sentimento que tem permeado meu ser, como se houvesse um outro tempo em mim, baseado numa certeza de que o tempo da vida é próprio e não é o da minha vontade.

Não sei quanto tempo viverá em mim essa sensação, mas está sendo uma experiência gostosa pra uma colérica, leonina, marciana!

OBS: No dia seguinte em BH, num Festival com milhares de pessoas, andando com minha amiga, encontrei o garoto que também estava acordado, então nos abraçamos e pudemos nos apresentar, prazer Léo!

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